sábado, 23 de maio de 2009

clareou não só o dia.




ele era estranho. não porque era a única pessoa caminhando logo cedo, quando nem a luz do sol apareceu direito e a gente já começa a ouvir uns carros funcionando, alguns passarinhos cantando pelas árvores, o acordar do dia e os ônibus começam a passar pouco a pouco, e as pessoas, com fumaça saindo da boca, anunciam o amanhecer.
ele era estranho porque usava roupas estranhas, porque era magro demais, velho demais, sombrio demais. A calça, daquele tecido antigo, apertando-lhe o estômago, uma camisa já marcada de suor embaixo dos braços, de um branco amarelado, como seus dentes, e aquele colete preto, grande e pesado.
aproximou-se e foi caminhando comigo, silenciosamente, embora já soubesse que, em algum momento, eu perguntaria a direção.
eu assumiria estar perdida.
-é esse o caminho?
-oi?

-é esse o caminho?
-depende, pra onde?

-pra onde você quer chegar... é esse?
-engraçado você perguntar, porque eu não sei por onde tô indo, tinha que chegar em casa, mas não sei se é por aqui.
-hum...
esse silêncio me quebrava a alma, como se eu fosse um pedaço de gelo sentindo-me trincando, rachando e me partindo em cacos, que jamais ficariam intactos, que derreteriam de tamanha vergonha, como um processo interminável pra sumir.
-sabe me dizer onde fica a Venâncio?
-sei sim, continua caminhando.
-mas por onde?
-do meu lado.
engoli a saliva como engolia um pedaço de carne mastigada, cheia de nervos, dura, depois de ter sido vitoriosa contra meus dentes que, cansados de tentar, enviavam sinais para o resto da boca, como um pedido de socorro, pra tirar aquilo dali.
-você vai pra lá também?
-posso ir se você quiser.
-tá, mas porque eu tenho que querer?
-não tem!
...
-você mora por aqui?
-moro lá atrás, onde a gente se encontrou.

-hum...
-e você? na Venâncio?
-é, moro lá... por enquanto.

-ahm. Por enquanto porque?
-ah, uns problemas de moradia, pessoas e tal.
-contas?
-mentiras.
-ás vezes é bom mentir.

-ás vezes é bom ser adulto.
como ele poderia me dizer que é bom mentir? isso feria todo meu moralismo de uma maneira desesperante, a vontade que eu tinha era de fazer um discurso dramático sobre como é ruim mentir e as porcarias que isso causa pras pessoas.
Mas apenas consenti!
E meu medo era de que eu já soubesse que era verdade mesmo o que ele dizia.
-estuda?
-oi?
-você estuda?

-não mais, tirei licenciatura em artes, mas acabei desistindo de tudo.
-tudo é uma palavra muito grande, acho que você desistiu só da faculdade.

-é... pode ser. Se bem que eu acabei desistindo de muitas outras coisas também.
-que tipo de coisas?
-ah, relacionamentos, amizades, sonhos. Fui desistindo.

-e do amor?
-quê?
-desistiu do amor também?
-não, foi ele que desistiu de mim.
e falava isso como uma aceitação, eu haveria de engolir como verdade o que tinha dito, porque mantive escondido o que eu já sabia e na primeira oportunidade que me perguntam, eu respondo sem êxito "foi o amor que desistiu de mim".
-e porque ele desistiu?
-não sei, vai ver porque eu faço tudo errado. Porque eu não sei usar ele direito.

-o amor não é feito pra ser usado!

-então porque não sei sentir ele direito.
-se você sente, não interessa se é direito ou não. Você sente!
caí dentro de mim, e fiquei procurando saber se eu sentia o amor, se ele tinha se escondido, se ele tinha me abandonado mesmo e ele percebeu que eu pensava, e como se ele não quisesse que eu descobrisse agora algo de muito ruim ou muito bom, cortou meus pensamentos continuando a conversa.
-eu tenho um filho.
-ah é?

-sim, ele tem 12 anos.
-hum.
Porque maldita razão ele caminhava com aquele sorriso no rosto? parecia estar lendo minha mente naquele momento e rindo ainda mais de mim porque eu me irritava com aquele sorriso e eu tinha vontade de dizer pra ele se virar e ir embora, mas queria também que ele me olhasse e começasse a falar algo sobre mim, que eu sabia que ele sabia, que eu sentia que ele enxergava, alguma coisa que todo mundo sempre dizia e que em toda situação estranha eu estava preparada pra ouvir.
Mas ele não dizia.
Ele ria.
E deveria ser mesmo de mim.
-e teu filho faz o quê? estuda?
-estuda em casa.
-não tá na escola?

-não, a gente tirou ele. Faz 15 anos que sou casado e eu trabalho com telefonia, minha mulher fica em casa com ele e a gente teve muito problema já, nos colégios. É um garoto agressivo.
-Tá, mas isso não significa que ele tem que ficar em casa, não é?
-a gente levou ele em psicólogos e em psiquiatras e sempre receitaram remédios ou diziam "ele é muito agressivo", mas isso nós já sabíamos, a gente queria saber o porquê que ele era assim.

-hum... entendo.
como alguém poderia aprisionar um filho dentro de casa, porque ele é agressivo? no quê meu Deus, que isso iria ajudar?
-Você não acha que quanto mais dentro de casa, trancado, mais agressivo ele fica?
-não, eu não acho.

-é que é estranho, sabe?
-é, parece estranho mesmo.
pensei "hum... parece?!"
o sol começava a cortar o meu rosto e meus olhos de quem ainda não tinha dormido e fui reconhecendo o caminho, sentindo mais familiar, o que me fez respirar aliviada.
-Tá chegando a Venâncio.
-pois é, eu percebi mesmo.

-acho que a gente se despede logo.

-é... mas quem sabe a gente não se encontra por aí!
-eu tenho que cuidar do meu filho.

-hum... então tá bom.
Como ele poderia se trancar tanto também? deixar de fazer tudo pra cuidar do filho. Eu só não entendia.
-eu moro ali, naquele prédio do lado da Igreja.
-hum... vou até frente contigo.

-tá, tudo bem. Obrigada!
...
-bom, já que não te vejo de novo, tchau!

-adeus.

-credo, que coisa mais de filme falar adeus. Diz tchau!
-como é seu nome?

-Six e o teu?

-Hugo.

-prazer Hugo!
-prazer... não sei o que é isso.
e nossos olhos se fitaram, como se eu quisesse descobrir se ele dizia isso com algum motivo além da palavra prazer, como se houvesse um maldito interesse sexual naquilo tudo.
E não tinha.
-viu... sai mais de casa, leva teu filho pra passear, não desiste dele!
-não... foi ele que desistiu de mim.
todos os cacos de gelo que eu era tinham quebrado e se espalhado por toda a calçada e aquele sol de verão me derretia e já me fazia virar fumaça subindo pro céu, enquanto eu pensava que o amor era meu filho trancado, com toda aquela agressividade que ele tinha.
aprisionado, se sentindo fraco, sem vida, porque o prendi alí.

dentro de mim...
ele me agredia
e eu o privava da liberdade de viver.
e ainda dizia que ele tinha desistido.

céus, eu desisti dele.
não importa mais o caminho, eu já desisti.

5 comentários.:

Giuliana Melo disse...

Relaciono:

- de.sis.tir:
renunciar

- re.nun.ci.ar:
recusar aquilo a que se tem direito


Aí eu penso...

Isabella disse...

Acho que foi o melhor texto que eu já li teu. Muito bom. ;)

Samuel disse...

Creio que você teve um daqueles momentos que me machucam. Epifânia.

Sabe, já encontrei e conversei com muitos velhinhos pela rua, mas nenhum deles era assim. Mas no fim você acabou enxergando algo profundo nele também...

(droga, algumas palavras me fugiram agora... ><"),

Samuel disse...

Você seria capaz de fazer um filme como Elephant do G.V.Sant, você tem a mesma sensibilidade que ele teve no filme pra conseguir retratar de forma poética um dia trágico, sem mesmo ser triste.

Six Américo. o/ disse...

Meu Deus, esse filme é fodasticamente bom.

fiquei chocada com esse comentário, acho que foi o melhor elogio que já recebi.

morri*

obrigada mesmo.

Postar um comentário

:)

:*