sexta-feira, 12 de junho de 2009

tinta seca.


e desenhava, contornava.
como se minha pele branca fosse papel e seus dedos fossem tinta fresca, me tocando, colorindo.
fazendo a arte dela em mim e me fazendo a arte dela.
desenhava nuvens por onde flutuamos alguns dias.
sol, na minha heliofobia, e um toldo onde me escondia, com a mão na testa.
desenhava uma lágrima caindo do olho esquerdo e uma sobrancelha erguida de riso, no olho direito.
sapateava e me pintava, como fosse um circo aquilo tudo alí.
e na minha barriga, desenhou borboletas, coloridas...
no estômago.
a voarem, trombarem, baterem asas por ela.
nas costas, beijo de boa noite e nas mãos, aliança.
pintou minha boca de vermelho, lábios de frio.
nos ombros, desenhou milimetricamente os próprios dentes.
a morder.
nas coxas, me entrelaçando, as pernas dela.
e foi desenhando, percorrendo.
um papel sem fim.
e cada espaço em branco precisando, implorando, suplicando um pouco da tinta,
dela.
desenhou no punho um cigarro me queimando e no braço um aperto.
detendo, agarrando, abraçando.
se esforçou por horas pra fazer no peito, um coração batendo, escorreu tinta vermelha de sangue.
das mãos,
dela.
rascunhou.
e jogou fora o papel.

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